Rotina x Monotonia

29 jan

Interessante e útil a reportagem da Revista Vida Simples, para os casados.

Selecionei alguns pontos:

  • Rotina é diferente de monotonia. A rotina faz parte do dia-a-dia e é até necessária. A monotonia é viver no mesmo tom.

“Emma era uma bela e jovem mulher, inteligente, encantadora. Casou-se com Charles, médico recém-formado, com um futuro promissor. O casamento perfeito, diria qualquer um; pareciam ter sido feitos um para o outro. Mas Emma, não obstante amasse e respeitasse Charles, em nome de quebrar a rotina, resolve traí-lo. Como não se tivesse saciado, continuou a busca, colecionando amantes e aventuras até que isso a conduziu, junto com Charles e toda a família, à ruína moral, social e financeira”.

Esse breve parágrafo é uma síntese pobre do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Emma odiava a rotina monótona da vida pequeno-burguesa de esposa de médico em uma localidade do interior da França, mas, em vez de tentar melhorar sua vida, influenciando seu marido entediante com alegria e emoção, buscou aventuras fora do casamento. A partir desse expediente, não só não encontrou o que buscava como ainda acabou com o pouco que lhe restava. A virtude de Emma – sim, ela tem virtudes – é ser inconformada, mas seu engano é o foco de sua atenção. Ela não tenta mudar sua vida e sim construir uma vida paralela.

Não, o problema não está na rotina, mas na monotonia. Ainda que haja forte conexão entre ambos, esses substantivos que se adjetivam com freqüência não são sinônimos. A rotina monótona difere da monotonia rotineira. A primeira precisa de atitude, a segunda de tratamento. Se a rotina, que é inexorável, está monótona, precisa de novos temperos. Se a monotonia já virou rotina, é possível que precise de novos ingredientes.

  • O par perfeito não existe. Saiba como se virar com um parceiro normal, de carne e osso, e ser feliz para sempre.
  • Em um casal, a recompensa não é imediata como no armazém. Quem paga com carinho e atenção nem sempre recebe na hora a retribuição que desejava – às vezes a encomenda não chega nunca. Sem paciência para esperar ou um Procon para reclamar, muita gente resolve mudar de fornecedor, e vai buscar o que quer no armazém do vizinho. Sim, porque, no mercado do desejo, o que não faltam são propagandas de bons produtos, bons negócios e até promoções.
  • Dependência não é bom para a vida do casal.

Ter vida própria, ser apaixonado pelo que faz, cuidar dos próprios afazeres e sonhos, ultrapassar suas fronteiras, crescer. Quando nossa energia criativa está solta, ativa, estamos plenos, os olhos brilham. E esse brilho alimenta a admiração e a paixão de quem está ao nosso lado.

  • É natural que quem receba o carinho relaxe muito e nem possa se mexer. A idéia, aliás, deveria ser essa. Só que o senso comum sobre “amar” é este: eu dou para você se você der para mim (não é um trocadilho). É um amor condicionado. O resultado é que ninguém entrega o amor. Ou o entrega cobrando, como um boleto de banco: massagem + cafuné = um beijo agarradinho. E assim tudo fica burocrático, exigente, impositivo, sem excitação, sem liberdade. “Entregue seu amor. Perca a preguiça e parta para a ação, o tempo todo”, diz o psicanalista Bassioli.
  • Pintou uma sensação ruim? Ouviu algo que não caiu bem? E aí disse uma frase dura para rebater? Ficou aquele silêncio cinza? Melhor resolver logo. “Fico achando que as coisas devem ser perceptíveis, que, se eu senti, minha mulher deve perceber também. Como se ela andasse por aí com uma bola de cristal.”
  • Paciência. Achar que uma conversa vai melhorar tudo de uma vez pode ser frustante. Muitas vezes, são várias conversas que trazem uma boa compreensão sobre algo e, finalmente, uma mudança de atitude.
  • O segredo para ficar bem não está no outro, mas em você. Casar por amor pede a você atenção, consciência. Exige uma coisa só: que você esteja aberto a desenvolver o amor dentro de si. Vai lá. Experimenta. De mãos dadas. Com os olhos nos olhos.
  • Claro que o amor é lindo, que o casamento foi inventado para dar certo, mas é um tremendo desafio manter-se casado.
  • Para ser feliz a dois, paixão não é fundamental. A história nos ensina que essa índole romântica é na verdade a sensação que qualquer pessoa pode ter, mesmo estando casada, de se dar o direito de jogar tudo para o alto e partir para viver uma grande aventura se tiver essa oportunidade.
  • O casamento é aquilo que podemos resumir numa única palavra: estabilidade. E é por isso que tanta gente o acha tedioso. Seguindo esse raciocínio, a relação a dois não deve ser, então, uma felicidade absoluta ou um inferno na Terra. É o caminho do meio.
  • Homens e mulheres vivem o casamento de forma diferente. O mito grego de Eros e Psiquê não deixa meias palavras: para a mulher, o casamento tem um quê de morte; uma etapa de sua vida se extingue. O que tiramos disso para nossas relações? Primeiro, que há dualidade no casamento.
  • Livrar-se das projeções criadas pela paixão é um grande favor que fazemos a nós mesmos. Livres disso, descobrimos o ser humano que existe no outro. ao enxergar isso, temos a oportunidade de construir uma relação nova, onde convivem um, o outro e os dois juntos. Só o amor conduz a esse processo, só ele leva a relação a outro estágio de consciência. E, no casamento, o amor deve ser compreendido como afeto e compromisso. Até amizade. Por sinal, em um dos ritos hindus do casamento, o noivo e a noiva juram solenemente: “Você será meu melhor amigo”.
  • Com esses três ingredientes – vamos repetir: afeto, compromisso e amizade – dá pra dormir e levantar com o mesmo alguém durante toda uma vida.
  • Tudo indica que a união da amizade e da compreensão é a essência do amor verdadeiro. E, quando ele existe no casamento, o marido ou a mulher estão sempre encorajando um ao outro. Mesmo que um descubra os defeitos do outro – o que é certo acontecer –, não caem na tentação de criticar-se, optando por segurar as pontas. “Amar é saber falar e calar. É preciso mesmo ter paciência, confiança e compreensão.”
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3 Respostas to “Rotina x Monotonia”

  1. Fatima 29/01/2010 às 11:58 #

    Marilia, foi muito bom ler o seu post hoje, aliás, temos que relembrá-lo dia após dia, um “vero” exercício. Não vim por acaso é que estou lendo madame Bovary.
    Um abraço.

    Obrigada pela sua visita! Volte sempre!

  2. Guilherme 01/03/2010 às 21:50 #

    Recomendaram-me também!

    É sempre útil!

Trackbacks/Pingbacks

  1. O retorno — Café Mineiro - 01/06/2010

    […] compromissos e acomodações. Temos que tomar as rédeas dele e agir, sempre. Senão a coisa fica monótona e a gente nem se dá […]

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