Pasárgada

19 set

“Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/
Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei (…)”

Manuel Bandeira

Exatos dez anos depois, voltei a Brasília pela segunda vez. Desta vez a trabalho, não a lazer.

A empolgação com a oportunidade de trabalho que surgiu deu lugar, primeiro, à saudade: viajar pra tão longe sem o marido e sem a filhota canina não foi fácil. Tratei logo de, ao sair da rodoviária Tietê, ler Alice no País das Maravilhas pra afastar tais pensamentos.

Depois veio a nostalgia: me recordei de uma das paradas (ela continua a mesma após dez anos?), da paisagem seca e plana, de árvores de tronco retorcido (exatamente como contam os livros de geografia), das letras do Legião Urbana… Achei engraçadíssimo deparar com compotas de doces de Poços de Caldas (minha quase terra natal).

A viagem de quase 15 horas de ônibus foi tranqüila. Deu até pra dormir um pouco.

Chegando a Brasília, na Rodoferroviária, estranhei um pouco: não é uma Rodoviária Tietê da vida… Mas acabei encontrando o que precisava: banheiro, comida e guichê para comprar passagem para a outra parte da viagem: ida a Posse, cidade do interior de Goiás.

Após duas horas de espera, já lendo Alice no País dos Espelhos (continuação pouco conhecida do primeiro livro), embarquei no ônibus. O tempo de viagem previsto era de cinco horas e meia, devido às inúmeras paradas que o ônibus faz (o famoso pinga-pinga mineiro). O percurso levou uma hora a mais que o previsto, pois um dos pneus do ônibus estourou_ asfalto quente, um ar salgado, eu diria. Até resolver tudo, trocar o pneu num posto… demorou. No posto, deparei com vários cachorros sem dono… um deles me lembrou muito Baleia, de Graciliano Ramos, pela magreza… suspiro. Tudo é seco por aqui, pensei.

Chegando a Posse, exatamente 24 horas após ter entrado no ônibus em São Paulo, Helena estava me esperando, segurando um papel onde estava escrito: Marília, seja bem-vinda! Recepção melhor impossível! Conheci seus filhos (que são crianças lindas) e marido, alguns amigos; comi uma torta de queijo e um Mané Pelado (torta de mandioca e coco) divinos, tomei meu nescafé… Tomei banho (estava precisando!).

Não dormi sem antes escrever essas poucas linhas. Quis registrar, pra não correr o risco de esquecer detalhes.

(…)

Os dias que se seguiram foram de muito trabalho: fiz audiometria em alguns funcionários de algumas fazendas da região (na região de fronteira Goiás-Bahia). A região é uma das principais produtoras de algodão do país.

Os dias também foram de fortalecimento de laços: a família que me acolheu é um encanto! Adorei! Fizeram de tudo pra me contar e mostrar sobre a região (coisas boas e ruins, belezas naturais escondidas pelo período de seca…) e fizeram de tudo pra que eu me sentisse em casa_ o que deu extremamente certo! Já sinto saudades da nossa convivência… Não posso deixar de mencionar os cachorros, principalmente a vira-lata Fúria, que de fúria tem só o nome.

Uma coisa que havia me esquecido de mencionar: Posse é uma das regiões mais gaúchas de Goiás (tanto que o prato típico é, nada mais nada menos, o churrasco gaúcho!).

(…)

Voltar pra casa foi bom. Bom partir, bom voltar. Estava com saudades do marido, da filhota canina, da casa, dos amigos… Confesso que foi difícil a re-adaptação à rotina. Mas, é isso: estou de volta!

PS: Cheguei na quarta-feira à tarde. O Manso, vira-lata lindo da praça, só refez as pazes comigo pelo “abandono” hoje à noite. É mole?

Anúncios

7 Respostas to “Pasárgada”

  1. jujudeblu 20/09/2008 às 17:28 #

    Outro dia eu mesmo estava lendo essas frases do Bandeira… ^^
    De fato, existem algumas viagens que marcam as nossas vidas, onde encontramos pessoas que nos ensinam muito mais do que aquilo que elas pensariam em ensinar… E nesses encontros e despedidas que nossas vidas vão tomando alguns rumos.

    É isso mesmo, Ju!

    Achei linda a descrição e imagino o quanto tudo foi importante pra ti!!!

    Beijocas!!!

    Foi uma viagem que valeu muito! Bjos!

  2. Fefa 20/09/2008 às 19:33 #

    ….Era frio e era claro
    como a seca de Brasília….já dizia Oswaldo Montenegro em “Coisas de Brasília”.

    Gostei disso!

    Marido e filhota canina ficaram com saudades e os amigos também, principalmente a aniversariante aqui que vos escreve. Hehe!

    Ahhhhhhhhhhhhh…

    Mas fiquei feliz por vc e por essa oportunidade, era hora de aproveitar, sem dúvida!

    E a Furia é uma fofa, não?!?

    Beijão!!!!

    Foi uma ótima chance! E a Fúria é lindona!! Bjos!

  3. Trotta 21/09/2008 às 22:36 #

    Putz, acho que vc ficou pior do que a sua filhota canina, que morria de saudades de vc! Deu dó, viu!

    Eu sinto que participei da sua viagem indiretamente. Estava junto quando vcs compraram o livro da Alice (e os outros trocentos e quatrocentos e noventa e mil livros), estava com o Bodas quando vc falou que furou o pneu, e fui eu que dei apoio ao Bodas, porque ele também ficou emo com a sua ausência. Pelo menos eu acho que ajudei de alguma forma, espero! Hehehe!

    Ajudou sim! 🙂

    Sério que o Manso ficou de frescura? Que chato, fala sério!

    Ele anda meio esquisito…

    Mas sua saudade dos amigos é mentira, porque até agora vc não nos viu! XP Que tal irmos comer aquele sanduba de mortadela no Mercadão, que ficaram me devendo na última visita que fizemos lá? 🙂

    Beijo!

    Vi só alguns dos amigos… estou mesmo em falta! Mas em outubro farei o (im)possível pra fazer regime, pois vou ser madrinha de casamento e preciso dar uma “enxugada”! Beijos!

  4. Christian Gump 23/09/2008 às 8:51 #

    hahaha adorei o Manso magoado! É um barato ver essa personalidade canina! Quando eu era criança, tinha que ficar intermediando as pazes entre os cães lá de casa e a minha mãe quando ela viajava. Eles ficavam tudo de mal! hehe!

    Aiai… eu não aguento!

    Quer dizer que esteve por aqui “no Goiás”, é? Sofreu de calor?

    Eu estive! E voltarei em novembro, se tudo der certo! Achei bem quente e seco! Mas, no fim, já estava me acostumando! Morri de frio quando cheguei em SP. E me lembrei de alguns posts seus, falando do sotaque goiano! 😉

Trackbacks/Pingbacks

  1. “Lá e de volta outra vez” « Publicações - Vol. 3 - 12/12/2008

    […] em Bate-Papo tagged paisagem, pessoas, trabalho, viagem às 23:36 por Marília Início de mês fui novamente pra Goiás, cidade de Posse, para trabalhar em fazendas do Estado ao lado, […]

  2. Balanço « Publicações - Vol. 3 - 03/01/2009

    […] legal (de curto-médio prazo e em alguns dias da semana, mas legal); -Viajei a trabalho pra Goiás duas vezes (o que foi essencial); -Consegui um outro trabalho legal (em esquema de períodos), dá […]

  3. Relato de viagem « Publicações - Vol. 3 - 01/05/2009

    […] engraçado, mas depois dessa e daquela experiência foi quase como ligar o carro no piloto automático. Difícil mesmo, é […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: