50 anos de Bossa

13 ago

Houve uma época (que não foi a minha e nem a sua, provavelmente) em que a música brasileira era dramática, com cantores que se esgoelavam para falar de amores trágicos. Nas décadas de 30 e 40, compositores como Noel Rosa e Dorival Caymmi, cantores como Orlando Silva e Mario Reis e cantoras como Carmen Miranda e Aracy de Almeida trouxeram leveza à música brasileira e ajudaram a abrir caminho para toda uma geração de artistas a partir do fim dos anos 50.

Em agosto de 1958, há 50 anos, um baiano de Juazeiro, mais conhecido como João Gilberto, lançava um disquinho de 78 rpm com as músicas Chega de Saudade (lado A) e Bim Bom (lado B). Foi o início da bossa nova.

A bossa é leveza: nos acordes, nas letras… praticada por João Gilberto, Tom Jobim, João Donato, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e tantos. Veja os versos de Minha Namorada, de Carlos Lyra e Vinícius (poema que o marido me deu na época de namoro e nem se lembra disso_ e pensar que dormi abraçada ao poema tantas noites pensando nele…): é leve, olha pra frente.

A bossa nova, junto com outros movimentos em outras partes do mundo, é contemporânea dos primórdios daquela mistura de ritmos negros que desaguaria no rock e da nova forma, mais solta, de se fazer cinema dos jovens cineastas franceses da nouvelle vague. As crianças que cresceram durante a Segunda Guerra enxergavam um novo horizonte à frente, longe das privações, dos tempos sombrios, dos gestos heróicos e das despedidas para sempre.

Ao romper com o dramalhão e o bolero, com o melodrama das paixões, ao ir para a beira da praia (em vez de se enfurnar em buracos do velho Centro) e ao se recusar a cair na fossa como a geração de seus pais, os moços da bossa nova buscavam na estética aquilo que já viviam no cotidiano: uma maneira mais delicada de tocar a vida, em que os amores não precisavam ser eternos, as amizades ajudavam a fermentar ainda mais a turma, a vida merecia ser celebrada a cada momento, sem desespero nem afobação.

Chico Buarque, que de certa forma é filho da bossa, pois foi escutando Chega de Saudade que ele decidiu ser artista popular, sem falar que iria ser parceiro de Tom e Vinicius (e por um período cunhado de João Gilberto!), tem uma parceria com Cristóvão Bastos intitulada Todo Sentimento. Na letra, a certa altura ele fala num tempo da delicadeza, algo que só pode ser compreendido a partir de quem se nutriu das canções bossanovistas.

Claro que, em matéria de alegria desmesurada, de deboche genial, de graça malandra não há quem ganhe do samba de Noel Rosa, Lamartine Babo, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho, só para citar alguns bambambãs de várias gerações. Sem falar que, sem a lição do samba, neca de bossa nova. Mas ela cristalizou (fixou para sempre) a alegria não só nas letras e melodias, mas no próprio ambiente em que os músicos passaram a circular.

Um viva à Bossa!

Baseado no artigo de Leandro Sarmatz, para a Revista Vida Simples.

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6 Respostas to “50 anos de Bossa”

  1. Cadinho RoCo 13/08/2008 às 23:18 #

    A Bossa Nova é um marco da nossa música. Não há como negar isso.
    Viva a Bossa Nova, sem dúvida.
    Cadinho RoCo

    Três vivas! Obrigada pela visita e volte sempre!

  2. Fefa 14/08/2008 às 11:14 #

    É por isso que eu não vou perder a exposição na Oca sobre a Bossa Nova, que vai até dia 7 de Setembro. Veja só: http://diversao.uol.com.br/ultnot/2008/07/04/ult4326u986.jhtm

    Uia!!! Eu quero!

  3. sonia.regly 15/08/2008 às 1:04 #

    Coloquei seu Blog como meus favoritos no Blogs blogs e te coloquei como fã.Beijinhos.

    Opa! Obrigada pelo carinho! Beijos!

  4. Carla 16/08/2008 às 0:13 #

    Fefa: A exposição tá sensacional!

    Ma: Você já foi ver a exposição? Sen-sa-cio-nal. E lá dentro tem um café danado de bom!

    Ui! Pegou no meu ponto fraco! Vou lá conferir! 😉

  5. Trotta 20/08/2008 às 17:24 #

    Gostaria de conhecer mais da Bossa Nova. Se alguém estiver colecionando aqueles fascículos da Folha… me empresta? Eu copio e devolvo! XD

    Infelizmente não estou. Se vc copiar, depois me empresta! risos…

    Esse Carlos Lyra deve ser parente de uma certa amiga minha. E pra mim a Aracy de Almeira sempre foi apenas uma velhota que era jurada do Show de Calouros do Silvio Santos, hehehe!

    Preciso conhecer a Bossa Nova. Sem dúvida a filosofia do movimento bate com a minha.

    Que bom que você se interessa pelo assunto!

  6. Rodrigo (Bodas) 26/08/2008 às 9:53 #

    Bossa é um ritmo legal…
    O problema são as letras vazias que muitas das musicas tem…
    Não são todas…
    Mas tem musica que a letra não tem nem pé… quanto mais cabeça….

    Ah… mas é legal!! mimimi…

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