Ai, que pregui…

18 dez

O tema do post é a preguiça… essa danada que vive no meu pé! Vou apresentar dois textos muito interessantes sobre o assunto: um neste post e outro no próximo. Vale lembrar que ambos são da Revista Vida Simples (da qual sou fã!): o primeiro é de maio de 2006 e o segundo é fresquinho, da última edição. E expressam opiniões complementares, eu diria.

 

Vamos à primeira. Resumi o máximo que pude do texto da Mariana Sgarioni.

“Não sou preguiçoso; sou contemplativo.”
Dorival Caymmi

Caymmi é vanguarda. De uns tempos para cá, cultivar a preguiça virou moda. Cada vez mais gente chega à conclusão de que uma agenda lotada de tarefas a cumprir num mínimo espaço de tempo não é mais motivo de status, e sim uma fonte de frustrações pessoais, além de porta escancarada para uma série de males, que vão da estafa aos ataques cardíacos.

Preguiça é a arte de não fazer rigorosamente nada. Isso quer dizer nada de oficialmente produtivo, bem entendido. A hora da preguiça pode ser um momento de contemplação, como ensina o mestre Caymmi. Pode ser coçar as costas por horas a fio. Pode ser tirar uma soneca. Pode ser ainda ficar deitado numa rede olhando para o céu e imaginando mil formas para as nuvens lá em cima ­ ou as rachaduras do teto, se preferir. Afinal, cada um faz nada do jeito que achar melhor. O que importa é apreciar esse momento de devaneio, de recolhimento e quietude como algo que pode ­ e deve ­ ser incorporado a sua vida.

É bom lembrar que não estamos falando aqui de fazer as coisas mais devagar, nem parar o que se está fazendo com o objetivo de ficar mais criativo e depois conseguir produzir mais e mais. Segundo o dicionário Aurélio, preguiça é justamente aversão ao trabalho, é indolência. É morosidade, lentidão, pachorra, moleza. Por definição, assim a seco, a preguiça já carrega um estigma ruim, coitada. A má fama da preguiça é algo que vem passando de geração para geração e foi construída ao longo dos tempos, atingindo em cheio o Ocidente mais especificamente a partir da Era Cristã; ­ sim, porque, na Grécia antiga, aqueles que ficavam largadões, dando asas ao livre pensamento, eram considerados seres especiais, que ficavam mais próximos dos deuses.

Já a Bíblia traz inúmeras citações que dão conta da preguiça como algo perverso, a ser evitado. “O que trabalha com mão remissa empobrece; mas a mão do diligente enriquece. O que ajunta no verão é filho prudente; mas o que dorme na sega é filho que envergonha”, diz um dos Provérbios. Deus pode até ter descansado no sétimo dia, mas somente depois de um árduo esforço nos seis dias anteriores. Sem contar que condenou Adão, Eva e sua prole a “ganharem o pão com o suor de seus rostos”. Um castigo e tanto, convenhamos. “Nesse caso, podemos pensar que o trabalho também nasceu de uma maldição. A própria palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento de tortura”, lembra Olgária Mattos, professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

A preguiça é ainda um pecado capital, vizinho da luxúria. A lista dos pecados capitais foi esboçada pelos primeiros pensadores cristãos, aperfeiçoada no século 5 por João Cassiano e fixada definitivamente pelo papa Gregório Magno, no fim do século 6. Nossa amiga preguiça foi a última a fazer parte da lista, acredite. Ela entrou no lugar da melancolia, quando, no século 17, a Igreja resolveu trocar uma pela outra, achando a melancolia um pecado um tanto vago demais.

Mesmo para as religiões orientais, que costumam ser mais condescendentes com as fraquezas humanas, a preguiça está em maus lençóis. “A preguiça é uma mente confusa que se nega a fazer atividades virtuosas, uma vez que está motivada somente pelos prazeres desta vida”, explica a monja Kelsang Palsang, do Centro Budista Mahabodi, de São Paulo. Para o budismo, a preguiça nada tem a ver com a falta de produção de bens materiais. Ela está intimamente ligada a quem não pratica atividades espirituais; ­ portanto (e para a delícia daqueles que amam paradoxos), quem passa o dia inteiro trabalhando feito doido, pode ser considerado um preguiçoso de carteirinha para os budistas. Já quem usa seu tempo meditando e aquietando a mente ­ e isso pode ser feito até enquanto dormimos ­ não é um indolente, muito pelo contrário. Quem dedica horas do seu tempo descansando para recuperar as energias e depois continuar praticando ações que beneficiem os outros também não é nada preguiçoso. “Um certo monge tibetano morava em uma gruta com um grande arbusto na entrada. Ele passava o dia todo meditando e fazendo preces, por isso nunca tinha tempo de cortar o arbusto. Até o dia que a planta cresceu tanto que ele mal conseguia sair de casa. Se ele desperdiçasse seu tempo cortando o arbusto, aí, sim, seria preguiçoso”, diz a monja. O raciocínio budista é simples: de que vale jogar fora todo o precioso tempo que temos na vida trabalhando somente para acumular milhões de riquezas se não vamos levar nada na hora da morte? “Muitas pessoas achavam que os monges eram preguiçosos, pois não trabalhavam e passavam o dia na mendicância. Eles podiam não gerar riquezas materiais, mas geravam a paz.”

No século 15, o puritanismo, religião que crescia na Inglaterra, propagava que quanto mais riquezas um cidadão acumulasse, maiores seriam suas chances de obter a salvação divina. Ou seja, a ordem era acordar cedo e trabalhar muito para edificar o caminho rumo ao reino dos céus. O primeiro sociólogo a fazer a ligação direta entre a cultura capitalista moderna e a religiosidade puritana foi o alemão Max Weber (1864-1920). Para ele, os fundamentos da moral puritana foram a base para a gênese da cultura capitalista. Com a Revolução Industrial e a consolidação final do capitalismo, realmente a situação de quem quisesse se entregar à leseira de vez em quando passou a ficar cada vez mais complicada: a ordem se tornou trabalhar, trabalhar e trabalhar. “Uma estranha loucura está a apossar-se das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão moribunda pelo trabalho, levada ao depauperamento das forças vitais do indivíduo e de sua prole”, escreveu o filósofo francês Paul Lafargue, genro de Karl Marx, que, em plena aurora do frenesi capitalista no século 19, denunciava a ideologia penitencial do trabalho como responsável pela infelicidade tanto da classe operária quanto, por extensão, da própria burguesia européia.

Prova disso são as pessoas que tiram férias e se queixam que voltaram ainda mais cansadas do que quando saíram. Entupir-se de programas, passeios, visitas a museus, cinema, teatro, parques de diversões e uma infinidade de atrações é como se fosse uma obrigação ­ é a reprodução da lógica do mercado de trabalho nas horas vagas. Todas essas opções de entretenimento podem ser muito atraentes, mas elas não precisam preencher o tempo todo.

Quem curte ­ e cultiva ­ a arte de não fazer nada tem bons motivos para comemorar. Os pesquisadores alemães Peter Axt e Michaela Axt- Gadermann passaram anos estudando o assunto e chegaram às seguintes conclusões, publicadas no livro The Joy of Laziness (“A alegria da preguiça”, ainda sem edição brasileira): levantar cedo causa estresse e prejudica a saúde; uma soneca no meio do dia ajuda a prolongar a vida; e, se o objetivo for viver mais, então você deve evitar o excesso de exercícios físicos. “Assim como os animais, nós também precisamos poupar energia para assegurar uma vida longa e saudável. Devíamos fazer como os bichos: criar o hábito de bocejar mais e espreguiçar bastante para ajudar na circulação do organismo”, diz Peter Axt, porta-voz da lentidão no meio científico.

Aderir à indolência é uma arte. E, como tal, deve ser feita sem preocupações. Caso contrário, ela não trará nenhum efeito benéfico nem para a mente nem para o corpo. Mas o que fazer então? Entregar-se de corpo e alma à frouxidão total dos músculos? Deixar de trabalhar? Não é bem assim. Até porque é bom lembrar que moleza em excesso pode ser sinal de depressão, uma doença séria que requer cuidados médicos. Mas um bom passo para começar a admitir uma dose de preguiça gostosa na vida seria tentar diminuir o número de tarefas a cumprir diariamente, ­ mais qualidade com menos quantidade.

Antes de dizer que não tem tempo para uma deliciosa vadiagem, repare de que forma você gasta suas horas. Quantas vezes checa seu e-mail por dia? Quantos telefonemas inúteis costuma fazer? E as horas em frente ao computador elaborando planilhas sem nenhuma utilidade? Ou xeretando sites na internet? A verdade é que desperdiçamos muito tempo com muitas atividades sem o menor sentido. Assim, sobra pouco mesmo para o dolce far niente.

Trata-se de definir quais são suas prioridades na vida. Procure esquecer um pouquinho os milhões de compromissos e reflita sobre seus reais valores. O que seria mais importante nesse momento: cochilar um pouco depois do almoço ou correr para terminar um relatório que pode ser entregue só amanhã? Atender ao celular ou apreciar o pôr-do-sol que vai acabar em instantes? É preciso mesmo conferir os e-mails a cada três minutos? Que sentido essas tarefas todas fazem na vida? Essas perguntas questionam a própria existência e devem ser pensadas com absoluta calma. Responder a essas e outras questões significa que você está tomando as rédeas da sua vida. E essa é a essência para abrir espaço ao relaxamento, ao devaneio, à doce contemplação. À preguiça, enfim.

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9 Respostas to “Ai, que pregui…”

  1. Fefa 19/12/2007 às 14:48 #

    Muito bom esse texto!
    Hoje saí da preguiça e tratei de arrumar os armários do meu quarto, mas foi difíciiillll!!!!!!!

    Preciso fazer isso amanhã!!

  2. Trotta 19/12/2007 às 18:41 #

    Ai ai, adoro curtir minha preguiçinha! ^_^ E esse texto cheio de referências históricas e bíblicas… tá um prato cheio! Vc não ficou com preguiça de pesquisar tudo isso? Hehehe

    Mas não fui em quem pesquisou! 👿

  3. ana p. 19/12/2007 às 21:32 #

    E nessas horas mais um viva para o meu mestre, Seu Madruga!!!

    “Não existe trabalho ruim: ruim é ter que trabalhar”

    Eu falo e ninguém acredita, menina, eu ADOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORO fazer nada… minha mãe não se conforma. Vou aproveitar que ela tem orkuta agora e vou mandar esse texto pra ela, hauhauhauhuahuahuahuaa

    kkkkkkkkkkkkkkk… dá-lhe seu Madruga!

  4. video facts 20/12/2007 às 5:01 #

    Hello, just stoped by the comment section to thank you for the work you have been doing so others can enjoy your blog with a morning cup of coffe 🙂

    Thank you!! Come back always! 😉

  5. Claudia Lyra 21/12/2007 às 14:40 #

    Ficar sem fazer nada é tuda!!! Ai, que morro de preguiça também… aliás, preguiça não! Estado de contemplação, isso sim!

    Contemplar é a palavra! 😉

  6. jujudeblu 22/12/2007 às 16:43 #

    Não gosto da preguiça, e também confesso que não gosto de conviver com pessoas preguiçosas DEMAIS. Mas acho que ter uma vida leve [não no sentido do meu post! hehe], não é de todo ruim.
    Acho que o maior problema da vida é não ter sentido para ela.
    Besitos, y hasta después de la Navidad! ^_^

    Preguiça demais nunca é saudável!! Beijos!

  7. Franz 25/12/2007 às 13:54 #

    “Não sou preguiçoso; sou contemplativo.”
    Dorival Caymmi

    Perfeito!

    hehehehe!!!

  8. Rodrigo Figueiredo 29/12/2007 às 17:53 #

    No Mestre Budista do Musashi é realmente assim!
    Extremamente inteligente, vive a viajar e refletir.
    Curto mais assim!

    Vamos conhecer o templinho budista que tem atrás de casa? Nos aprofundar um pouco mais nessa filosofia? Topa?

  9. Francisca Barros 26/02/2009 às 13:43 #

    Gostaria de saber se preguiça tem cura ?
    Convivo com uma pessoa que tem preguiça até de falar parece que não sai nada da boca da pessoa,quando sai não dá para entender nada doque essa fala,se tem gostaria de saber o nome do rémedio vou comprar o laboratorio inteiro para a tal pessoa socorro me ajudem!!!!!!!!!!!!!!!

    Desculpe, mas não posso ajudá-la. Quem sabe um médico?

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