A picanha da classe média

15 out

Por Carlos Azevedo (Extraído da Revista Caros Amigos)

Recentemente, tenho lido com freqüência manifestações indignadas segundo as quais, enquanto a classe média (elite) dá um duro danado para construir o Brasil, trabalha, paga impostos etc., o povo fica só de “chupim”, vivendo do Bolsa Família. A Veja acaba de publicar uma pesquisa que, de acordo com a interpretação da revista, demonstra ser a elite o que há de melhor no país, e que todo o nosso atraso se deve à ignorância do povo.

Fiquei impactado com essas revelações luminosas, mas não perdi a fome (afinal, ninguém é de ferro, nem a elite e muito menos o povo). Fui a um restaurante e pedi uma picanha. Ela veio no ponto, rosadinha e macia. Agradeci à classe média por essa maravilha. Quantos dias de trabalho deve ter custado a essas senhoras e senhores respeitáveis, cidadãos cumpridores de seus deveres, fazer uma picanha como essa? Tem que cuidar da vaca, do bezerrinho dela, dando ração todo dia, curando suas doenças até virar novilho, tudo isso pisando em bosta de boi, sem esquecer aquele cheiro de curral. Depois, matar o boi etc. etc., até extrair a maravilhosa picanha. Enquanto isso, o povo ó!, só no Bolsa Família.

Aí, peguei meu carro para ir para casa. E agradeci de novo à classe média laboriosa pelo petróleo que ela produz generosamente. (Não, não são os petroleiros, você precisa ler mais a Veja.) E pelo seu ingente trabalho de plantar cana, fazer álcool, para misturar na gasolina. Agradeci pelo carro também, porque quem senão ela faz o carro? E assim fui pensando em tudo de bom que a classe média produz, meus sapatos, as roupas, meu chapéu (eu uso chapéu quando faz frio!); em tudo que ela constrói, os prédios, as ruas, as estradas. E tudo o mais: telefone celular, televisão, computador, Internet… Percebo que Adam Smith, Ricardo e Karl Marx enganaram-se redondamente em dizer que o valor vem do trabalho. Ele vem é da classe média!

  E acabei pasmo, pensando em como é difícil para a classe média (elite) ter de carregar nas costas esses milhões de operários, técnicos, cientistas, trabalhadores na agricultura, bóias-frias, camponeses sem terra, índios, esses vagabundos! Ainda bem que ela consegue se distrair nos shopping centers, cinemas, na televisão a cabo, no Orkut (que ela fez), matar a saudade da Disney comendo sanduíche do Mcdonalds (que a classe média americana fez). Oh, meu Deus, que peso! Não é de estranhar que esteja tão cansada! Por que o governo não cria também uma Bolsa Classe Média?

Ler este texto, remeteu-me na hora a esse post que o Rodrigo fez. Veio reforçar minha teoria em relação à referida pesquisa: pessoas com maior poder aquisitivo e, portanto, com mais estudo (teoricamente; na verdade, leia-se mais lábia para os sujeitos de má fé) sacaram o intuito das perguntas, e manipularam suas respostas!

 

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6 Respostas to “A picanha da classe média”

  1. ana p. 15/10/2007 às 23:03 #

    Quando a revista Veja publicou essa matéria, lembro de ter comentado algo a respeito no blogue do Poeta… a manchete da reportagem já era algo assustador.

    Não cheguei a ficar sabendo…

    Mas o que esperar de uma revista que faz questão de entrevistar Dória Jr, que, aliás, tb está cansado?

    É tudo muito zuado…

    [eu recebi um email uma vez de mais algum “cansado” que dizia que teve um ser numa cidade X do nordeste que pediu demissão e foi viver de bolsa família, auxílio escola, auxílio gás, seguro desemprego, PIS e o caralho a quatro.
    eu, como funcionária da Caixa, respondi super educadamente o email, explicando que aquilo tudo estava equivocado e que, no mínimo, era uma grande mentira. sabe o que dizem nessas horas para mim? que eu sou funcionária pública, sou vagabunda e não quero perder meu empreguinho. pois é. é difícil tentar argumentar com classe média “cansada”…]

    Afff!! Socorro!!

  2. neutron 16/10/2007 às 8:50 #

    Ah, é. Só porque as pessoas mentem nas pesquisas, dizendo que não usariam um cargo público em benefício próprio, por exemplo, quer dizer que essas pessoas ‘valem’ mais?

    Não é a classe média que está cansada não… é ela que está cansando…

    hehehe… pois é!!! Pelo menos a grande parte dela, que não tem a mínima consciência das coisas!

  3. Márci 16/10/2007 às 10:01 #

    Ótimo texto de Carlos Azevedo !

    E o pior é que a Veja é uma das revistas mais lidas no Brasil (senão A mais), e muita gente lê essas cosias e bota uma fé, concorda e faz sua opinião com base neste tipo de coisa…Lamentável….

    Com certeza!

  4. Fefa 17/10/2007 às 15:43 #

    Classezinha mais sem vergonha é essa, não? Bando de cansados!

    hehehehe!

  5. Trotta 17/10/2007 às 16:52 #

    Ah, a doce ironia escrita, tão difícil de se colocar em prática. Adoro quando esses colunistas rivais se enfrentam assim, citando nomes, hehe!

    Risos!

  6. Rodrigo Figueiredo 18/10/2007 às 21:28 #

    Estive aqui!
    Não sei o que comentar!
    Any way!

    😡 Não valeu, hein?!

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