Pinga x Cachaça

23 jul

Vocês sabiam que pinga e cachaça são coisas diferentes? Não? Pois é, mas são… Mas são termos utilizados como sinônimos por quase todo mundo. É bem difícil eu ingerir cachaça pura, exceto por três tipos que ganharam meu paladar: a Tequila, a Canelinha e a Jurupinga. Fora esses três tipos, fico com uma boa caipirinha, seja com limão, seja com outras frutas. Segue uma pequena história sobre a cachaça e a destilação pelo mundo.

A cachaça é destilada a partir da borra ou melaço da cana, ou seja, das sobras da fabricação do açúcar. Já a pinga é fabricada a partir da garapa, do caldo de cana fermentado e destilado, depois da fervura e evaporação, que “pinga” na bica do alambique.

Os primeiros relatos sobre a fermentação vêm dos egípcios antigos. Curavam várias moléstias, inalando vapor de líquidos aromatizados e fermentados, absorvido diretamente do bico de uma chaleira, num ambiente fechado. Os gregos registram o processo de obtenção da ácqua ardens (a água que pega fogo ou água ardente _al kuhu). Alquimistas tomam conhecimento da água ardente, atribuindo-lhe propriedades místico-medicinais. Transforma-se em água da vida, e a eau de vie é receitada como elixir da longevidade.

A aguardente então vai da Europa para o Oriente Médio, pela força da expansão do Império Romano. São os árabes que descobrem os equipamentos para a destilação, semelhantes aos que conhecemos hoje. Eles não usam a palavra al kuhu e sim al raga, originando o nome da mais popular aguardente da península arábica: arak; uma aguardente misturada com licores de anis e degustada com água. A tecnologia de produção espalha-se pelo velho e novo mundo. Na Itália, o destilado de uva fica conhecido como grappa. Em terras Germânicas, se destila a partir da cereja, o Kirsch; na antiga Tchecoslováquia, atualmente dividida em República Tcheca e República Eslovaca, a destilação da Sleva (espécie de ameixa) gera a slevovice (lê-se eslevovitse). Na Escócia fica popular o whisky, destilado da cevada sacarificada. No Extremo Oriente, a aguardente serve para esquentar o frio das populações que não fabricam vinho. Na Rússia a vodka, de centeio. Na China e Japão, o sake, produzido a partir da fermentação do arroz é frequentemente confundido com uma aguardente devido ao seu elevado teor alcoólico, mas é na verdade um vinho. Portugal também absorve a tecnologia dos árabes e destila a partir do bagaço de uva, a bagaceira.

Já em 1530 os primeiros donatários portugueses decidem começar empreendimentos nas terras orientais do Novo Mundo, implementando o engenho de açúcar com conhecimento e tecnologia adquiridos nas Índias Orientais, vindas do sul da Ásia. A geração inicial de colonizadores apreciava a bagaceira portuguesa e o vinho do porto. Assim como a alimentação, toda bebida era importada da metrópole. Num engenho da capitania de São Vicente, entre 1532 e 1548, descobrem o vinho de cana-de-açúcar – garapa azeda, que fica ao relento em cochos de madeiras para os animais, vinda dos tachos de rapadura. É uma bebida limpa, em comparação com o cauim – vinho produzido pelos índios, no qual todos cospem num enorme caldeirão de barro para ajudar na fermentação do milho. Os senhores de engenho passam a servir o tal caldo, denominado cagaça, para os escravos. Daí é um pulo para destilar a cagaça, nascendo assim a cachaça.

Uma outra teoria diz que antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes. Misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. O “azedo” do melado antigo era álcool, que aos poucos foi evaporando e formou goteiras no teto do engenho, que pingavam constantemente. Era a cachaça, já formada, que pingava. Daí o nome “PINGA”. Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores, ardia muito. Por isso deram o nome de “ÁGUA-ARDENTE”. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. Então, sempre que queriam ficar alegres, repetiam o processo. Com o tempo a fabricação da cachaça foi sendo aprimorada e caiu no gosto da população em geral. Hoje em dia é artigo de exportação.

Dos meados do século XVI até metade do século XVII as “casas de cozer méis” se multiplicam nos engenhos. A cachaça torna-se moeda corrente para compra de escravos na África. Alguns engenhos passam a dividir a atenção entre o açúcar e a cachaça. A descoberta de ouro nas Minas Gerais, traz uma grande população, vinda de todos os cantos do país, que constrói cidades sobre as montanhas frias da Serra do Espinhaço. A cachaça ameniza a temperatura.

Incomodada com a queda do comércio da bagaceira e do vinho portugueses na colônia e alegando que a bebida brasileira prejudica a retirada do ouro das minas, a Corte proíbe a partir de 1635 várias vezes a produção, comercialização e até o consumo da cachaça. Sem resultados, a Metrópole portuguesa resolve taxar o destilado. Em 1756 a aguardente de cana-de-açúcar foi um dos gêneros que mais contribuíram com impostos voltados para a reconstrução de Lisboa, abatida por um grande terremoto em 1755.

Como símbolo dos ideais de liberdade, a cachaça percorre as bocas dos Inconfidentes e da população que apóia a Conjuração Mineira (ou Inconfidência Mineira). A aguardente da terra se transforma no símbolo de resistência à dominação portuguesa. Com o passar dos tempos melhoram-se as técnicas de produção. A cachaça é apreciada por todos. É consumida em banquetes palacianos e misturada ao gengibre e outros ingredientes, nas festas religiosas portuguesas – o famoso quentão.

Devido ao seu baixo valor e associação às classes mais baixas (primeiro os escravos e depois os pobres e miseráveis), a cachaça sempre deteve uma áurea marginal. Contudo, nas últimas décadas, seu reconhecimento internacional tem contribuído para diluir o índice de rejeição dos próprios brasileiros, alçando um status de bebida chique e requintada, merecedora dos mais exigentes paladares. Atualmente várias marcas de boa qualidade figuram no comércio nacional e internacional e estão presentes nos melhores restaurantes e adegas residenciais pelo Brasil e pelo mundo.

De acordo com o Decreto nº 4.851, de 2003, o artigo 92 diz o seguinte sobre a Cachaça: Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de trinta e oito a quarenta e oito por cento em volume, a vinte graus Celsius (°C), obtida pela destilação do mosto fermentado de cana-de-açúcar com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro, expressos em sacarose.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cacha%C3%A7a
http://www.publimetro.com.br/

pinga

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19 Respostas to “Pinga x Cachaça”

  1. Mamy 23/07/2007 às 15:19 #

    Gosto de cachaça – ou pinga, não sabia que tinha essa distinção; amei saber! -, mas tem que ser de boa marca. Uma que costumo comprar é a Seleta, da região de Salinas/MG. Outra que é muito boa é a Itaocarina… hum… purinha é bom demais!

    Pinga (ou Cachaça, acho que só lendo no rótulo pra saber de onde veio) de Minas é geralmente boa! Mas não tenho certeza se já provei dessa!

  2. Trotta 23/07/2007 às 16:00 #

    Que mentiiiiira! É claro que elas são a mesma coisa, vc que tá querendo me confundir! XP E, pelo jeito, não posso mesmo tomar nenhuma dessas coisas, nem vodka… : /

    Não pode? Por quê não?

    E gostei mais do layout novo. 😀

    Anhé? Que bom! 😉

  3. Cily 23/07/2007 às 19:29 #

    Menina, tá expert em cachaça e pinga!
    😀

    Bjs

    Ah, tô nada! Só curiosidades… Bjos!

  4. Rodrigo Figueiredo 23/07/2007 às 19:52 #

    Ficou interessante o texto!

    Brigadim… embora vcê tenha “lido por cima”… 😛

    E to no mesmo barco que vc!
    Pinga pura, só se for tequila ( mas nem é tão puro assim afinam sem sal e limão não têm graça ) , canelinha e jurupinga mesmo!

    É bom, né?

    Que eu acho que deve ter bem mais do que 6 gramas por litro diga-se de passagem!

    Hehehe… é bem docinho sim!

  5. Fefa 23/07/2007 às 21:14 #

    Gostei desse texto, Má!
    Agora, eu nunca tomei tequilaaaaaaa! Humpf!

    beijos!

    Mas temos que remediar esta situação!!! Bjos!

  6. neutron 24/07/2007 às 8:30 #

    Nossa, eu nem sabia que tequila também era cachaça!

    Ah, é um tipo de destilado mexicano…

    E chama ‘pinga’ porque pingava! hahahahahahaha 😛

    Divertido pensar isso, né?

    *eu fiquei pensando “será que a Má que comenta no meu blog é a Marília?”, mas acabei não perguntando! hehehehe 😉

    Sou eu sim!!! 😀 Atualizei meu perfil colocando o nome do site!

  7. Ricky 25/07/2007 às 6:21 #

    Oiee!

    Adorei o novo Layout! está bem clean.

    Obrigada!

    Bebida alcólica nunca foi meu forte. Só uns licores ou bebidas bem docinhas… tipo vinho moscatel.

    Isso também é bom…

    Podiam ensinar esse tipo de história na escola.

    Abraços.

    Abraços!

  8. Caminhante 25/07/2007 às 10:29 #

    Eu, particularmente, gosto da bebida em suas duas matizes. Cachaça, pinga, sei lá. Já provou Havana?

    Não provei Havana, não, mas vou procurar saber… A única coisa que conheço com esse nome é o alfajor e café, rs…

    Parabéns por teu sítio.

    Obrigada!

    Abraço.

    Abraços e obrigada pela visita! Volte sempre!

  9. juju 27/07/2007 às 13:08 #

    Muitas informações! Interessante!
    Eu gosto MUITO de tequila! Desde que a descobri, minha vida mudou! hehehe

    Hummm… mas é bom demais!!

    Fora isso, saquê é algo que, desde o fatídico dia em que passei mal por causa de comida japonesa, nunca mais bebi. Está na lista das próximas bebidas que vou tomar!

    É gostoso! Ainda mais em forma de caipirinha!

    Fora isso tbm, ando me passando por bebum… não importa, o que é bom é bom e pronto! E viva a cachaça!!! :~)
    Bjus!

    Só não pode exagerar de vez, hein?! 😉 Beijão!

  10. jofre 27/12/2007 às 13:46 #

    Olha, já experimentei quase todos os destilados do mundo e posso te afirmar que, se não fores uma expertise, não irás diferenciar uma da outra.

    Com certeza!!! Eu não sei quando é uma e quando é outra! Obrigada pela visita e volte sempre!

  11. messias s. cavalcante 02/01/2008 às 13:41 #

    No início do artigo é dito que cachaça é obtida da distilação da “borra ou melaço de cana” e a pinga da “garapa ou caldo de cana”. Contudo, o último parágrafo (Decreto 4851, artigo 92 de 2003) define cachaça como destilado do “mosto fermentado da cana-de-açúcar”. Na verdade o artigo 92 define a aguardente de melaço. A cachaça é definida no artigo 91, onde diz que é obtida do destilado alcoólico simples da cana-de-açúcar ou do mosto fermentado da cana-de-açúcar: CACHAÇA

  12. messias s. cavalcante 02/01/2008 às 14:36 #

    Continuando o comentário acima:

    CACHAÇA é definida no parágrafo 1º como “cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38% a 48%, em volume a 20º Celsius e com características sensoriais peculiares.”

    Coleciono cachaças e as mais de 8000 estão, com fotos e informações no site:
    http://www.pingaiada.alfenas.net

    Puxa, obrigada pelas informações! Volte sempre!

  13. Nelma 20/03/2008 às 14:33 #

    Gostei de saber sobre a história da cachaça-pinga.Que pingava,por isso veio o termo pinga. Boa mesmo é a cachaça ITAOCARINA , de Itaocara RJ., interior do Estado do Rio de Janeiro. Muito melhor que as cachaças de Minas. Vocês precisam conhecer esta bela cidade interiorana. Apareçam por lá. Nelma

    Olá, Nelma! Obrigada pela visita e pela dica! Abraços!

  14. alvaro 10/11/2008 às 9:42 #

    bem interessante as referencias à cachaça ou pinga (o importante é degustá-las). A propósito vc conhece ou pode me informar algum material didático onde me ensine a fazer cachaça no estilo artesanal???

    estou no agurdo da resposta…

    até breve para degustarmos uma boa cachaça ou talvez uma pinga……..

    Puxa, não conheço nenhum material no estilo… mas será que o Google não te ajudaria? Abraços e obrigada pela visita! 😉

  15. Lucas 10/06/2009 às 16:56 #

    Naum sabiia! mtO bOm!

  16. gustavo 18/08/2009 às 21:14 #

    qeridao axo q vc troco as bola a pinga é feita do bagaço i nao a cachaça

  17. messias s. cavalcante 02/07/2011 às 12:50 #

    1. Não foram necessariamente os escravos, índios ou africanos, que perceberam que o caldo de cana ou as sobras da produção de açúcar fermentados eram uma bebida alcoólica.
    2. A cachaça (destilado de subprodutos de cana de açúcar) foi inventada por europeus, que conheciam o processo de destilação e tinham os equipamentos.
    3.Cachaça e rum são a mesma bebida, que pode ter sido inventada no século XVII (não no XVI, como todos afirmam) no Brasil ou em qualquer outro país das Américas.
    Recomendo, para detalhes, o livro A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CACHAÇA, da Sá Editora, de São Paulo SP.
    Messias

    LANÇAMENTO

    “Se você pensa que cachaça é água…” esse livro merece sua atenção!

    A VERDADEIRA HISTORIA DA CACHAÇA

    Autor: Messias S.Cavalcante
    ISBN: 978-85-88193-62-8
    Nº de págs./Preço: 608 págs./R$ 67,00
    Formato: 16×23 cm.
    Gênero:

    A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CACHAÇA é uma obra empolgante de um pesquisador apaixonado. Messias Cavalcante, autor deste livro, ostenta uma menção no Guinness como o maior colecionador de garrafas de cachaça do mundo!

    Conhecimento ele tem de sobra pra falar do assunto e a paixão você vai sentir à medida que se envolver com a prosa desse paulista que reside atualmente no Sul de Minas Gerais. Minucioso e preciso, Cavalcante reúne nesta obra definitiva a história da criação e da produção da bebida, demonstrando como índios, brancos e negros participaram da receita. Mostra o papel dos colonizadores e até de certa parte do clero que usou a cachaça com fins catequizadores – e não é que conseguiram tornar fiel todo um país? –, até os dias de hoje, com a bebida ocupando um lugar nobre em nosso patrimônio cultural, profundamente enraizada em nossos hábitos e nosso folclore.

    Se você acha que a cachaça é uma invenção brasileira, espere um pouco! Pois ao mesmo tempo em que monta o seu relato, Cavalcante desmonta mitos, verdades até então inabaláveis, provocando o leitor com dados e informações que enriquecem e dão mais sabor à leitura… e a sua próxima dose de uma autêntica cachaça de qualidade!

    Messias S. Cavalcante, Ph. D. em Biologia, nasceu em Andradina/SP, ex-pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Reside atualmente no Sul de Minas Gerais, à beira do Lago de Furnas. É detentor do Guinness Record para a maior coleção de garrafas de cachaças do mundo.

    SÁ EDITORA

    Tel./Fax: (11) 5051-9085
    http://www.saeditora.com.br
    eveline@saeditora.com.br

  18. Walmor Val 27/10/2011 às 11:18 #

    Entrei no Google especialmente para conhecer e derimir sobre a terminologia das palavras “pinga” e “cachaça”, as quais são empregadas como sinônimos e na verdade não são, como vimos no artigo acima, aliás, confirmando o que eu já sabia. Lendo hoje a Folha de São Paulo, ha um extenso artigo sobre “cachaça”, mas não tratam desta questão. Ganhei eu, pois aprendi muito com voce Marília e com outros internautas que deram seus depoimentos. Parabens.-(Wamor Val-Capivari-SP)

  19. carlos 26/07/2012 às 14:32 #

    jurupinga nao e nem cachaça e nem pinga e vinho licoroso meu caro

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