Tênis x Frescobol

15 fev

Bem, nesse último final de semana fomos para Poços, para, entre outros motivos, fazer nosso Curso de Noivos… 😛
Escolhemos fazer na própria capela onde iremos nos casar… ela é regida por freis… (Gentem, adorei os freis! Achei as atitudes e falas deles muito gostosas! Mais legal que os padres que conheço…). Foi no sábado a tarde toda (das 14:30 às 21:30), mas teve difeito a lanchinhos e tudo o mais_ comemos moooito! 😉 .As primeiras palestras foram mais legais… as últimas foram conservadoras demais… Mas, valeu!
Uma das coisas que o Frei disse foi um trecho de um texto de Rubem Alves, do qual gostei muito. É um pouco longo, mas é muito bonito, compara o casamento aos jogos de tênis e de frecobol.
Transcrevo aqui esse trecho pra vocês:

Tênis x Frescobol

“Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo…’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\’ não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\’. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\’. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…”

Fonte: http://www.rubemalves.com.br/tenisfrescobol.htm

 

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8 Respostas to “Tênis x Frescobol”

  1. Rodrigo 15/02/2007 às 23:22 #

    Entenda-se por comer muito ser igual a 10 mini-pães recheados de carne moída + 4 ou 5 pedaços de bolo de cenoura com cobertura de chocolate!

    Uia! Vc tinha que ser tão detalhista?!?!😛

    Uma coisa engraçada é ver eles falando e pensar no vídeo do Secret que eu postei…
    Dá pra fazer uma analogia! Eles mentalizam Deus realizando as coisas que eles querem e elas realmente acontecem!

    É vero… dá pra pensar que o que nós realmente desejarmos vai se realizar…

    Bem louco! Sempre gratos por tudo que Têm.

    A histórinha é antiga e já rolou por emails com apresentações bonitas ou só textos mesmo…
    Mas vale a pena ler sim!

    Tá faltando só descobrir o que vc prometeu que iria procurar! 😛

    Eu?!!? Não lembro… que foi que eu prometi que iria procurar? Fala pra mim!! 😉

  2. Claudia Lyra 16/02/2007 às 10:41 #

    Lindo texto, Má. A idéia é bem essa mesmo. Pena que hoje a gente encontra tanto tenista por aí…

    É verdade… Acho que dá para aplicar esses estilos de jogadores para qualquer relacionamento humano, não é? Amizade, coleguismo…

  3. Trotta 16/02/2007 às 11:19 #

    Maravilhoso o texto! Muito muito bom mesmo! Adorei! 😀

    É não é… e se aplica à vida, na minha opinião…

    E gostei principalmente deste trecho:
    Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada.”

    Olha, esse trecho eu até entendo, mas acho muito gostoso ouvir um “eu te amo” até hoje!

  4. Fefa 16/02/2007 às 16:23 #

    Lindo o texto! Uma lição e tanto!

    Fico feliz por vocês! Passaram por uma etapa! E com mta comilança…rsrsrs.

    risos… é verdade!!

    Que venha a próxima!

    beijos, Má!

    Beijão, Fefa!

  5. Policarpe 19/02/2007 às 0:27 #

    Bonito texto Marília…Concordo plenamente com o texto. Eu sempre me esforcei p jogar o frescobol. Quando via que o negócio tava mais p Tênis eu chegava com a garota e encerrava o jogo….
    abraços

    Abração! Brigada pelo coment! 😉

  6. Trotta 21/02/2007 às 17:16 #

    É que só dizer não basta, né? Tem que dizer e fazer! 😉

    Isso é verdade!

  7. osvjor 21/02/2007 às 23:29 #

    Como fã de tênis, só tenho um reparo a fazer: não se usa a expressão cortada, como em pingue-pongue. Pode-se dizer winner, ou bola vencedora, ou uma passada. E, mas isso já é mera opinião pessoal, certamente o tênis é bem mais bonito e emocionante que o frescobol, não?…
    Abs e felicidades.

    Obrigada pela visita! E pelas informações! Realmente acho que uma partida de tênis seja mais emocinante, mas, quanto ao tipo de relacionamento, prefiro o frescobol. 😉

    Visitei seu blog, mas não consegui comentar 😦 Morri de rir com seu post-notícia! Bizarro!

  8. jujudeblu::: 23/02/2007 às 13:08 #

    O Dri me mandou por email o post… então, eu vim!

    EEEE! Que feliz!!

    Muito legal o texto, mesmo!
    E a frase que chamou a atenção do Dri é exatamente o que eu penso que acontece… quando vc diz isso pela primeira vez, a pessoa fica surpresa e gosta muito. Depois disso, dizer isso parece que não faz efeito, muitas vezes parece que a pessoa nem lembra o quanto foi importante ter dito isso pela primeira vez…

    Concordo que só falar não basta, tem que ter atitude junto!

    Enfim!
    Gostei muito do texto, viu?

    Bem legal, né?

    Estou feliz por vcs estarem próximos do altar! hehehehe

    😉

    Bjinhos…

    Beijos, Ju!! Adorei sua visita!

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