Arquivo | março, 2005

Um presente muito especial (1998)

24 mar

Tema: Aniversário de 18 anos.

Hoje estou completando dezoito anos. Sinto que uma fase da minha vida já passou. Sinto-me importante, pois agora poderei tirar carteira de motorista, participar mais ativamente da política do país e…

“Dim-Dom” _ a campainha interrompendo meu fluxo de pensamentos. “Quem será?”.

Ao abrir a porta, dei de cara com o carteiro. Ele trazia um envelope grande endereçado a mim e sem remetente. Agradeci-lhe, mas onde já se viu não me dar os parabéns?!?

Olhei para o envelope, curiosa. Quem poderia tê-lo mandado. “Abrir ou não abrir, eis a questão”. Fiquei nessa luta, por um tempo (sempre quis ficar num dilema bobo, com as atrizes de novela). Por fim, abri-o. Dentro havia uma folha em branco, um CD e uma foto minha de quando eu tinha uns quinze anos. “Nossa! Que estranho!” Fiquei amedrontada de início, mas depois fui vencida pela curiosidade. “Por onde começar?… Pelo CD!”.

Coloquei o CD no aparelho de som. Era uma ópera de Shakespeare que falava de amor. “Será que quem me mandou a carta quer que eu seja Sherlock Holmes?” A ópera é linda_ assisti-a com um ex-namorado quando tinha quinze anos; ele foi meu único grande amor. “Hum…” Comecei a unir a foto ao CD_ “Será que foi ele?”.

Olhei a foto. Sim, não restavam dúvidas. A foto foi tirada na casa dele. Eu dei-lhe minha foto para que servisse de lembrança. Mas, uma idéia atravessou minha mente como um raio. Na peça, Sherlock desvendou um enigma colocando a folha contra a luz. Resolvi fazer o mesmo e qual não foi minha surpresa ao ver cupidos, corações e… Uma mensagem: “Passarei aí mais tarde para buscar minha foto. O CD é para você. RF”. Após um breve instante de perplexidade, fiquei eufórica: era meu amor que voltava do exterior!

“Tenho que me arrumar”, pensei. Tomei um banho demorado, coloquei minha melhor roupa… Parecia uma princesa.

Às oito horas da noite, a campainha toca novamente. Abro e na minha frente está um imenso buquê de rosas vermelhas e brancas, segurado por RF.

“Feliz Aniversário, meu amor”.Após chorarmos abraçados, conversávamos mais que… Com licença, leitor, mas agora, o momento é pra ser vivido só a dois.
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Comentários

Não seja por isso!!!!!
Patty | 01/04/2005 01:47
Resposta: kkkkkkkk…

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Patty | 31/03/2005 14:17
Resposta: grande coisa… rs…

 

 

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Eu (1998)

23 mar

Tema: Uma janela aberta para a minha vida.

Era nove de janeiro de 1982. À noite, na Maternidade São Paulo, eu nasci. Prematura, media mais ou menos 30 cm e pesava pouco mais de 1800g, fui direto à estufa, onde passei minha primeira semana de vida.

Muito brava e brincalhona, tinha medo de minha irmã, Alphena, uma cadela da raça boxer, que zelava por mim com muita dedicação.

Momentos de puro prazer intercalados por várias atribulações depois que minha mãe se foi. Decepção, medo, ódio, pavor… eram esses os sentimentos que nutri durante toda a minha infância e parte da adolescência. Não gostava do meu corpo: entrei na puberdade precocemente e me sentia diferente das outras meninas. Sofri muito com as brincadeiras de mau-gosto dos colegas e até mesmo da minha madrasta_ que nunca gostou muito de mim por eu ser a única lembrança viva da união de meu pai com minha mãe.

A fase de ouro chegou com todo o seu vigor e trouxe vários conflitos. Chegando ao ponto de pensar em suicídio, saí do poço em que me encontrava amadurecida. Com a idade veio a beleza; não me achava desengonçada, mas sim graciosa e bela.

Sempre procurando vencer obstáculos e atingir minhas metas, lutei, e luto, por meus ideais. Ambiciosa, realizar-me-ei profissionalmente quando for profissional da saúde. Sensível e transbordando sentimentos, sentir-me-ei completa quando me unir definitivamente com minha cara-metade.

Aliás, o amor chegou mais cedo em minha vida. É muito bom viver um relacionamento gostoso onde o amor é o sentimento que reina absoluto_ embora esse namoro seja escondido da minha família, já que meu pai não quer que eu namore antes de entrar numa faculdade.

Sempre fui estudiosa e apreciadora de boa leitura. Também gosto, e muito, de músicas que passem alguma mensagem. Meus números preferidos são o 3 e o 5; cores, branco, preto e marrom. Meu sonho é viver de acordo com meus planos.

Já aprendi que a vida nem sempre é como quero, mas sei que posso trabalhá-la para que fique do meu gosto.

Um grito para a morte (1998)

17 mar

Tema: A favor da eutanásia.

“Meu nome é João. Sou um paciente terminal e há dez anos moro na UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo. Não sei bem se são exatamente dez anos, pois aqui a gente perde a noção do tempo, só sei que me parece uma eternidade.

A espera angustiante me envolve. Não sei se amanhã poderei acordar e, se realmente acordar, encontrar minha família exatamente com a deixei. Será que minha mulher não me trocou por outro? Será que meus filhos ainda se lembram do pai brincalhão que eu fui?

Será… Oh, palavra ingrata_ aliás, é uma palavra que não deveria existir, pois só traz a dúvida, a incerteza.

Será que morro amanhã?!?

Não sei se meus amigos ainda se lembram de mim_ não sei se ainda tenho alguém pra cuidar de mim caso eu sobreviva. A dúvida me mata, pouco a pouco.

A cada segundo que passa, sinto o fio da vida indo embora, me abandonando. Todos me abandonaram. Resta-me apenas a enfermeira, que de hora em hora vem a meu quarto.

Minhas forças estão se esvaindo. Não sei se vale a pena lutar por um amanhã de luz, pois posso decepcionar-me com o mundo lá fora.

Sinto-me um sonâmbulo, pois vejo um pouco da vida e um pouco da morte. Esta situação me esgota.

Vou juntar minhas forças e o restante da minha fé para chamar a morte. Quero acabar com essa dor, de uma vez por todas. Preciso dizer um adeus definitivo a este mundo.

Nessas horas, a idéia da morte é minha única companheira e sua estrada me parece ser a menos sofrível e a mais consoladora.

… Será que morro hoje?!?”
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Patty | 18/03/2005 01:14

Mil e uma noites… na fila dos desempregados (1998)

16 mar

Tema: Só existe realização profissional quando o indivíduo atende a sua vocação íntima.

O desemprego bate seu recorde: são milhares e milhares de “sem-nada”. Há uma minoria que não trabalha por opção, mas a maioria foi despedida devido à mecanização, onde um robô é capaz de exercer o trabalho de dezenas de homens em um tempo menor.

Há casos em que o trabalho adulto é substituído pelo infantil; já as crianças trabalham para ajudar aos pais e, portanto, não exigem salários maiores nem melhores condições de trabalho; como na colheita de laranja, em Sergipe, onde 12 mil crianças trabalham. Há muitas crianças vivendo da prostituição e de outros subempregos. A vida tornou-se um grande palco de uma luta sangrenta, onde o vencedor é aquele que tem dinheiro_ a essa altura, dignidade é uma palavra desconhecida.

Com a crise econômica, a maioria dos indivíduos opta por exercer uma profissão lucrativa_ mesmo não sendo de seu gosto. Pesquisas mostram que é difícil tornar-se um bom profissional numa atividade em que não se tem prazer. O profissional deve ser dedicado e comprometido com seu trabalho. As pessoas notam, prestam atenção em quem gosta do que faz, em quem trabalha por prazer e não por obrigação. Sendo bom na profissão, o dinheiro irá aparecer algum dia.

Não se pode escolher uma profissão apenas por, atualmente, ela oferecer boas oportunidades de emprego, pois isso pode mudar com o tempo. Atividades consideradas como bem remuneradas, revelam seu outro lado: não basta ser médico ou advogado, é preciso ser muito competente e saber ir atrás de novas oportunidades.

Há muitos médicos que precisam trabalhar em três locais diferentes para conseguir obter um salário decente no final do mês. Há pessoas que abandonam seus empregos para venderem cachorro-quente na rua. A crise já atingiu a todos.

O indivíduo deve atender ao apelo da sua vocação para realizar-se profissionalmente. O bom profissional, aquele que não se cansa de estudar, de buscar algo novo, sabe driblar o desemprego.

Não existem fórmulas de sucesso. Este está no interior de cada indivíduo, tímido como um botão de rosa. Depende exclusivamente das pessoas fazer com que esse broto germine.

Não há motivo para comemorações (1998)

15 mar

Tema: Brasil: 500 anos entre a floresta e a escola.

Em pleno século XXI, o Brasil ainda é latifundiário, a agricultura é a base de sua economia e está nas mão de poucos. O poder passa de geração a geração dentro de uma mesma classe dominante há séculos.

Quando Cabral chegou aqui, deparou-se com índios e florestas mas não se intimidou: matou os índios e desmatou as florestas. Fato que ocorre até hoje_ o índio Geraldino foi queimado por 4 adolescentes de Brasília, a Mata Atlântica está reduzida a uma pequena faixa de terra, a Amazônia é desmatada constantemente para diversos fins.

Os colonizadores utilizaram-se do trabalho escravo. Os patrões de hoje também o fazem. Em Sergipe, 12 mil menores trabalham na colheita da laranja e quase todos tiveram suas digitais corroídas pelo ácido cítrico. Na mineração, crianças colocam em risco seus pulmões e sua vida em troca de míseros trocados. Aproximadamente 7,5 milhões de jovens de 10 a 17 anos trabalham (a maioria vende doces nos semáforos ou se prostitui), o que representa 11,6% da força de trabalho brasileira. Em contrapartida, o desemprego entre adultos é alto devido ao medo que os empregadores têm do prejuízo, já que a economia ainda não se estabilizou.

Em meio à miséria no Nordeste, onde os responsáveis são os políticos que desviam verbas, a Copa do Mundo polariza paixões nacionais e emoções patrióticas. O futebol deixou de ser brincadeira de criança e envolve a mídia e a bolsa de valores. Disque 0900, sensacionalismo e lixo cultural, assim é a mídia brasileira.

País multifacetado, onde o cinema está recuperando seu fôlego e o voto é obrigatório, pois os políticos sabem que a instrução do povo não é das melhores e, do contrário, muitos não votariam. Querem privatizar faculdades públicas (aliás, já venderam quase tudo ao estrangeiro) e retirar os cursos técnicos das escolas públicas, dizendo ser por economia. Mas não medem esforços para que o Brasil seja o líder do Mercosul e possa competir com o Estados Unidos na futura Alca. Fazem campanhas contra a automedicação, responsável por 80% dos lucros das indústrias farmacêuticas e 40% das vendas das farmácias e ao mesmo tempo formam médicos antiprofissionais que desconhecem as fórmulas químicas dos remédios e cometem abuso sexual e negligência. Policiais, que deveriam proporcionar segurança, matam 111 pessoas no Carandiru e 7 crianças na Candelária e ficam impunes. Pessoas não têm onde morar devido à ganância e ao descaso de alguns.

Gênios da música e da literatura brasileira tentaram e ainda tentam mostrar ao povo que já é hora de abrir os olhos e acordar a justiça, que dorme há cinco séculos.

São 500 anos no atraso. O Brasil vive ainda no século XVI ou na Idade da Pedra?
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Patty | 16/03/2005 11:57

Encenação (1998)

14 mar

Tema: Diálogo sobre o desemprego.

(“1” sentado numa cadeira com a mão sob o queixo. “2” se aproxima.)

2- Meu amigo, por que é que você está assim?

1- Ah, eu estou queixoso da situação do nosso país. Ainda tenho lembranças dos anos anteriores, onde eu tinha um emprego.

2- É verdade! O número de desempregados chega a 1,5 milhão só em São Paulo. Dá até vontade de nem lutar por justiça.

1- Mas é preferível o trabalho ao ócio!

(“3”, um viajante, entra em cena.)

2- Bom dia! De onde você está vindo?

3- Eu sou oriundo do Nordeste. Estou vindo a São Paulo imbuído de vontade de trabalhar.

1- (suspira) Mais um caso de migração semelhante a todos os outros…

3- Ora, eu sei que hoje, dia 1º de Maio, estão acontecendo passeatas em todo o país devido à falta de emprego. Vim para trabalhar como pedreiro.

2- Meu amigo, saiba que até a mão-de-obra utilizada na construção civil deve ter um mínimo de qualificação.

1- É verdade. A situação está tão desesperadora que a notícia já foi redigida em vários idiomas.

2- E quem é tímido no agir, em tomar decisões, também está com seus dias contados. È necessário uma requalificação profissional geral para se conseguir um bom emprego.

(“4” entra em cena, cabisbaixo.)

1- Por que toda essa tristeza, compadre?

4- Antes eu estivesse melancólico por nada. Mas não é justo o que o governo está fazendo para com o povo.

3- E o que é que está havendo?

4- O governo diz que o único vencedor da corrida contra o desemprego é o ensino, mas não oferece educação, alimento ou moradia de boa qualidade ao povo e ainda reclama do alto índice de analfabetismo. Estou zonzo de tudo isso! Sou grato a Deus, que tem me ajudado em momentos tão difíceis…

3- Que Deus ajude a todos nós.

(1, 2, 4)- Amém.

A Perdição e a Salvação ao Alcance de Todos (1998)

10 mar

Tema: Um arriscado esporte nacional

É comum ouvir uma pessoa dizer à outra qual é o remédio mais eficaz para a sua doença. As trocas, os empréstimos de remédios entre amigos são cada vez mais cotidianos. O que quase ninguém sabe é que este excesso de amizade pode ser fatal.

O Brasil está entre os três primeiros países que apresentam maior índice de pessoas que se automedicam. O brasileiro tem mania de achar que está ou que pode vir a ficar doente e, conseqüentemente, acha que tomando remédios para todos os tipos de males estará se prevenindo. A esta situação dá-se o nome de hipocondria, o que realmente é uma doença grave.

A automedicação leva à morte, na maioria dos casos, pois a pessoa que ingere remédios sem conhecimento pode ser alérgica a substâncias presentes nestes e, conseqüentemente, ter um choque anafilático e nunca mais abrir seus olhos.

No país, 40% das vendas de remédios realizadas pelas farmácias se dão graças aos hipocondríacos. As indústrias fármaco-químicas têm 30% do seu lucro aliado à compra de medicamentos sem a receita médica.

Por lei, as farmácias são proibidas de vender qualquer remédio sem o pedido médico e devem ter, pelo menos, um farmacêutico formado, responsável pela farmácia. São raras as farmácias que obedecem a estas regras. O farmacêutico, ou pior, o balconista da farmácia julgam ter conhecimento igual ou maior ao do médico e se acham capazes de dar suas próprias receitas.

Por outro lado, o médico deve entender de fórmulas bio-químicas para saber qual remédio receitar_ mas muitos médicos não sabem na da de química e receitam remédios a esmo.

Outro perigo que vem crescendo é o da falsificação de remédios. Alguns plágios chegam a ser idênticos aos originais, enquanto outros são grosseiros. Estes remédios são mais baratos que os originais e são comprados até por clínicas e hospitais_ talvez até seja por inexperiência ou por desconhecimento do assunto. Não interessa o motivo pelo qual a compra foi efetuada, o que se sabe é que muitas pessoas já morreram, pois possuíam doenças graves e pensavam estar se curando quando, na verdade, tomavam o remédio errado.

Os riscos são muitos. As chances de evitá-los também. Basta um pouco mais de solidariedade e um pouco menos de ganância.