“Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/
Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei (…)”
Manuel Bandeira
Exatos dez anos depois, voltei a Brasília pela segunda vez. Desta vez a trabalho, não a lazer.
A empolgação com a oportunidade de trabalho que surgiu deu lugar, primeiro, à saudade: viajar pra tão longe sem o marido e sem a filhota canina não foi fácil. Tratei logo de, ao sair da rodoviária Tietê, ler Alice no País das Maravilhas pra afastar tais pensamentos.
Depois veio a nostalgia: me recordei de uma das paradas (ela continua a mesma após dez anos?), da paisagem seca e plana, de árvores de tronco retorcido (exatamente como contam os livros de geografia), das letras do Legião Urbana… Achei engraçadíssimo deparar com compotas de doces de Poços de Caldas (minha quase terra natal).
A viagem de quase 15 horas de ônibus foi tranqüila. Deu até pra dormir um pouco.
Chegando a Brasília, na Rodoferroviária, estranhei um pouco: não é uma Rodoviária Tietê da vida… Mas acabei encontrando o que precisava: banheiro, comida e guichê para comprar passagem para a outra parte da viagem: ida a Posse, cidade do interior de Goiás.
Após duas horas de espera, já lendo Alice no País dos Espelhos (continuação pouco conhecida do primeiro livro), embarquei no ônibus. O tempo de viagem previsto era de cinco horas e meia, devido às inúmeras paradas que o ônibus faz (o famoso pinga-pinga mineiro). O percurso levou uma hora a mais que o previsto, pois um dos pneus do ônibus estourou_ asfalto quente, um ar salgado, eu diria. Até resolver tudo, trocar o pneu num posto… demorou. No posto, deparei com vários cachorros sem dono… um deles me lembrou muito Baleia, de Graciliano Ramos, pela magreza… suspiro. Tudo é seco por aqui, pensei.
Chegando a Posse, exatamente 24 horas após ter entrado no ônibus em São Paulo, Helena estava me esperando, segurando um papel onde estava escrito: Marília, seja bem-vinda! Recepção melhor impossível! Conheci seus filhos (que são crianças lindas) e marido, alguns amigos; comi uma torta de queijo e um Mané Pelado (torta de mandioca e coco) divinos, tomei meu nescafé… Tomei banho (estava precisando!).
Não dormi sem antes escrever essas poucas linhas. Quis registrar, pra não correr o risco de esquecer detalhes.
(…)
Os dias que se seguiram foram de muito trabalho: fiz audiometria em alguns funcionários de algumas fazendas da região (na região de fronteira Goiás-Bahia). A região é uma das principais produtoras de algodão do país.
Os dias também foram de fortalecimento de laços: a família que me acolheu é um encanto! Adorei! Fizeram de tudo pra me contar e mostrar sobre a região (coisas boas e ruins, belezas naturais escondidas pelo período de seca…) e fizeram de tudo pra que eu me sentisse em casa_ o que deu extremamente certo! Já sinto saudades da nossa convivência… Não posso deixar de mencionar os cachorros, principalmente a vira-lata Fúria, que de fúria tem só o nome.
Uma coisa que havia me esquecido de mencionar: Posse é uma das regiões mais gaúchas de Goiás (tanto que o prato típico é, nada mais nada menos, o churrasco gaúcho!).
(…)
Voltar pra casa foi bom. Bom partir, bom voltar. Estava com saudades do marido, da filhota canina, da casa, dos amigos… Confesso que foi difícil a re-adaptação à rotina. Mas, é isso: estou de volta!
PS: Cheguei na quarta-feira à tarde. O Manso, vira-lata lindo da praça, só refez as pazes comigo pelo “abandono” hoje à noite. É mole?
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