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Eu, primata

17 jul

Nós, seres humanos, nos achamos a última bolacha do pacote, os reis da cocada preta, a criação suprema de Deus, superior a todas as outras. Esse sentimento de superioridade vem desde o Gênesis, quando Deus criou o homem à sua imagem, ficando os demais animais delegados a cumprir as vontades humanas. Sempre que o homem “peca” culpa seu lado animal e irracional (são chamados de animais, bestas, antas), sempre que é bom, o é graças ao lado humano. Não é à toa que o demônio é caracterizado com “apetrechos” animais: chifres, cauda, pata.

Rodrigo Cavalcante, na Revista Vida Simples de Junho, aborda o tema de maneira deliciosa. Abaixo, trecho da matéria.

O biólogo holandês Frans de Waal no livro Eu, Primata, faz um fascinante estudo que compara o comportamento de chimpanzés e bonobos (espécie semelhante ao chimpanzé) ao nosso próprio comportamento. Após anos de observação dos nossos parentes mais próximos na evolução (os chimpanzés compartilham conosco 98,6% dos genes), De Waal e uma série de outros pesquisadores estão derrubando as fronteiras que colocavam a espécie humana totalmente à parte de seus primos, como se nós não fôssemos primatas ainda que com menos pêlos. Não se trata de defender que seres humanos, chimpanzés, orangotangos, gorilas e outros primatas são iguais. Eles não são. Mas de reconhecer o que os especialistas sabem há muito tempo: somos bem mais parecidos com eles do que costumamos admitir e vice-versa. Assim como nós, os grandes primatas têm autoconsciência, cultura própria, ferramentas e habilidades políticas. Ao identificar em outras espécies traços que eram considerados exclusivos dos seres humanos, a forma como encaramos nossas próprias emoções e comportamento deve mudar nas próximas décadas.

Foi o velho Sigmund Freud, há mais de 70 anos, o primeiro a reconhecer com maestria a origem do desconforto que sentimos ao vivermos em uma sociedade que barra a todo instante nossos impulsos e desejos. Freud chamou essa tensão entre o desejo e sua restrição social de mal-estar da civilização, nome de um de seus ensaios mais importantes, que descreve o confronto entre o animal que somos e a sociedade que tenta domesticá-lo.

Desde o século 4 a.C., Aristóteles já havia definido o homem como um animal político. No século 16, Maquiavel revelou de forma crua os mecanismos nem sempre nobres pelos quais os homens alcançam e preservam o poder. Por que, ainda assim, insistimos em dissimular o desejo humano por poder? Quando foi estudar os chimpanzés na Tanzânia, na década de 1960, a americana Jane Goodall fez uma descoberta fascinante: as coalizões e disputas entre os machos de um mesmo grupo eram cheias de lances típicos de parlamentares no Congresso. Ao contrário do que muitos imaginavam, Goodall percebeu que a força bruta não era suficiente para que os machos dominantes preservassem seu poder. Para isso, eles tinham que fazer alianças e conchavos, como qualquer candidato à promoção em uma empresa ou a um cargo político.

Se você acha que o homem é o único animal capaz de fazer sexo como forma de aliviar um dia estressante, você precisa conhecer os bonobos. Conhecidos no passado como chimpanzés-pigmeus, hoje os estudiosos sabem que os bonobos são primatas com características físicas e traços sociais bem diferentes dos chimpanzés. Enquanto os chimpanzés são liderados por machos, os bonobos são dominados por fêmeas e costumam levar uma vida bem mais pacífica por meio de uma atividade sexual, digamos assim, bem movimentada. Os bonobos não só fazem sexo em uma infinidade de posições, mas também em praticamente todas as combinações de parceiro, afirma Frans de Waal. Eles refutam a idéia de que sexo se destina unicamente à procriação.

Após séculos de pregação religiosa, grande parte da humanidade se sentiu perversa ao ouvir que o sexo destinava-se exclusivamente à procriação. Defensores dessa tese costumavam usar exemplos do mundo animal, já que muitas espécies têm ciclos sexuais bem determinados. Como o estudo dos bonobos revelou que eles fazem sexo até mesmo para amenizar a disputa na hora de partilhar alimentos, as teses de que o sexo serve apenas para a procriação tiveram que ser revistas.

Por muitos séculos, a discussão em torno da essência humana dividiu os filósofos em dois lados. De um, estão aqueles que acreditam que o homem é naturalmente inclinado à violência e à competição ou, como no velho provérbio romano, a idéia de que o homem é o lobo do homem. Do outro lado, estão os filósofos que acreditam que o homem tem uma natureza pacífica. Para eles, a violência da guerra, por exemplo, seria muito mais um desvio provocado por circunstâncias temporárias como a escassez de alimentos ou disputas territoriais que um traço humano inato.

De acordo com os pesquisadores do comportamento dos primatas, a disputa entre essas duas vertentes faz pouco sentido. Ou seja: não somos totalmente agressivos nem totalmente altruístas. Somos uma espécie bipolar, afirma De Waal, lembrando nossa capacidade de, em alguns segundos, passar da compaixão à ira, do relacionamento estável ao sexo promíscuo, da cooperação à disputa feroz pelo poder.

De acordo com o pesquisador, mesmo que tenhamos, sim, predisposições inatas, isso não significaria que os humanos seriam espécies de atores cegos encenando programas genéticos da natureza. Assim como outros primatas, temos flexibilidade para improvisar e nos adaptarmos à natureza de diversas formas, mas com uma responsabilidade extra. Como nossa espécie conquistou a dominância sobre todos os demais, é ainda mais importante que ela se olhe com honestidade no espelho para conhecer tanto seu arquiinimigo como seu aliado, pronto para ajudar a construir um mundo melhor, diz De Waal. Ou seja: em vez de querer enterrar o fato de que somos primatas, devemos ter humildade para reconhecer que a beleza e a tragédia da vida do homem deriva do fato de que ser humano é ser um animal e não necessariamente no velho sentido negativo da palavra.

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